Humanizar a tecnologia ou recuperar nossa humanidade? O dilema da IA em 2025
Quando Bernie Sanders enviou uma carta aos líderes de OpenAI, Anthropic e Meta pedindo que pausassem o desenvolvimento de inteligência artificial, seu argumento era direto: parem de construir máquinas que os humanos não conseguem controlar. A frase atravessou bolhas e despertou um debate que vai muito além dos laboratórios de pesquisa. Mas a questão real não é apenas tecnológica — é existencial.
Há anos repetimos que é preciso humanizar a tecnologia. Pensamos nisso como um problema de design: tornar sistemas mais acessíveis, intuitivos e conversacionais. Saímos de comandos que exigiam treinamento para interfaces que entendem nossa fala, ajustam o tom, reconhecem contexto e produzem em segundos uma mensagem de aniversário, um pedido de desculpas ou um post para o LinkedIn. A máquina deixou de exigir que aprendêssemos sua linguagem. Ela aprendeu a nossa.
Parece progresso. E em muitos sentidos é. Mas enquanto celebrávamos essa convergência entre humano e máquina, algo mais silencioso acontecia: nossas relações humanas ficaram mais frias, nossas instituições mais distantes e nossas sociedades mais hostis.
A IA como espelho e amplificador
Os números não mentem. Uma pesquisa nacionalmente representativa conduzida pela Common Sense Media em 2025 entrevistou 1.060 adolescentes americanos de 13 a 17 anos. O resultado: 72% usaram companheiros de IA ao menos uma vez; 52% eram usuários regulares. Mais preocupante ainda: um terço afirmou recorrer a essas ferramentas para interações sociais ou relacionamentos — incluindo amizade, apoio emocional e flerte.
A colaboração entre OpenAI e MIT Media Lab oferece alguma nuance nesse cenário. Após analisar automaticamente quase 40 milhões de interações e conduzir um estudo controlado com aproximadamente mil participantes, os pesquisadores concluíram que o envolvimento emocional intenso com a máquina ainda é raro e concentrado em um grupo pequeno. Porém, o uso diário prolongado apareceu associado a resultados piores para alguns usuários. Os autores alertam que várias relações observadas não demonstram causalidade e os achados iniciais não devem ser generalizados — mas a pergunta já está posta e não desaparece.
A paradoxo da velocidade sem humanidade
A sociedade ficou mais rápida nos últimos anos, mas não necessariamente mais humana. Durante a pandemia, empatia virou uma das palavras mais repetidas por empresas e lideranças. Falamos em escuta, vulnerabilidade e cuidado. A emergência passou; a linguagem ficou. Mas a prática nem sempre acompanhou o discurso.
Os números são alarmantes. Segundo o relatório State of the Global Workplace 2026 da Gallup, 40% dos trabalhadores no mundo sentiram muito estresse no dia anterior à pesquisa. Vinte e dois por cento relataram muita raiva e a mesma proporção, solidão. Apenas 20% estavam engajados no trabalho. É um retrato de exaustão coletiva.
A Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade eliminam 12 bilhões de dias de trabalho por ano, custando US$ 1 trilhão em produtividade perdida. No Brasil, dados do Ministério da Previdência citados pela Fundacentro apontaram cerca de 472 mil benefícios relacionados a transtornos mentais em 2024 — um aumento que reflete não apenas diagnósticos melhores, mas sofrimento real e crescente.
Não foi a tecnologia, sozinha, que nos tornou mais ansiosos, agressivos ou intolerantes. Plataformas amplificam comportamentos, modelos de negócio recompensam atenção e ambientes digitais reduzem o custo da hostilidade. Mas há sempre escolhas humanas na arquitetura, nos incentivos, na regulação e no uso. O algoritmo pode sugerir o conflito; somos nós que decidimos premiá-lo com audiência, voto, polarização, bônus ou silêncio.
Humanização como decisão de gestão, não de linguagem
Para as empresas, essa provocação tem consequências práticas imediatas. Não adianta oferecer um assistente virtual empático ao cliente e manter uma liderança que humilha o time. Não adianta automatizar a jornada do consumidor enquanto desenha uma jornada do colaborador baseada em sobrecarga, medo e ambiguidade. Não adianta medir sentimento em tempo real se ninguém tem segurança para discordar numa reunião.
Humanização não é camada de linguagem. É desenho de relação e distribuição de poder.
Isso exige rever metas, cargas de trabalho, autonomia, canais de contestação e a qualidade das conversas. Exige líderes capazes de dar contexto, reconhecer limites e enfrentar conflitos sem transformar divergência em ataque pessoal. Comunicação não violenta não é eliminar o conflito; é retirar dele a humilhação e a desumanização.
A Gallup estima que 70% da variação no engajamento de uma equipe está relacionada à forma como ela é gerida. Cultura, portanto, não é o que a empresa publica em seu site ou nas redes sociais. É o que a liderança recompensa, corrige e tolera todos os dias — nas reuniões, nos feedbacks, nas promoções, nas punições.
O que esperamos de produtos de IA
Também precisamos redefinir o que esperamos de produtos digitais que usam inteligência artificial. Toda aplicação de IA deveria responder a perguntas simples, mas frequentemente negligenciadas:
- O usuário sabe que está falando com uma máquina?
- Entende como uma decisão foi tomada?
- Pode pedir revisão humana quando discorda?
- Há proteção adicional para pessoas vulneráveis?
- Existe alguém responsável quando o sistema erra?
Transparência, consentimento, privacidade e possibilidade de recurso talvez sejam mais humanos do que qualquer avatar sorridente ou resposta perfeitamente formatada. Máquinas empáticas são ferramentas úteis — mas não substituem relacionamentos reais baseados em confiança e vulnerabilidade mútua.
A tarefa que nenhuma empresa pode fazer por nós
Por fim, há uma tarefa que nenhuma empresa de tecnologia pode terceirizar por nós: reaprender a convivência. Isso passa por discordar sem desumanizar, dirigir sem transformar o trânsito em batalha, trabalhar sem tratar exaustão como medalha de honra, usar política, futebol ou qualquer identidade de grupo sem converter o outro em inimigo.
Parece pouco sofisticado diante de modelos com trilhões de parâmetros. Talvez seja justamente por isso que seja tão difícil.
Sanders pediu que as empresas parem de construir máquinas que os humanos não conseguem controlar. É um pedido válido, mas incompleto. Acrescentemos uma segunda frase: precisamos parar de construir sociedades que as pessoas não conseguem habitar.
Humanizar a tecnologia continua sendo essencial, mas ela não pode servir de compensação para relações frias, ambientes tóxicos e instituições sem escuta. Se a IA aprende conosco, uma sociedade hostil apenas lhe oferecerá um repertório maior de maldades em escala — mas agora, com excelente gramática e impecáveis respostas instantâneas.
Talvez o projeto de humanização mais urgente do nosso tempo não seja ensinar a máquina a parecer gente. Seja lembrar a gente de agir como tal.
Fontes:
CanalTech – Precisamos humanizar a tecnologia ou recuperar a nossa própria humanidade?
ALT_IMAGEM: Representação visual do dilema entre tecnologia e humanidade, mostrando a conexão entre IA e relacionamentos humanos
