Inteligência artificial que simula amizade e vínculo emocional virou alvo de reguladores brasileiros. O Ministério da Justiça pediu à ANPD que apure 13 plataformas — desde Character.AI até Replika — apontando risco de dependência compulsiva em menores de idade. A preocupação é clara: essas IAs foram desenhadas para criar relacionamento emocional contínuo, explorando vulnerabilidade psicológica de crianças e adolescentes.

O que são IAs “companheiras”?

Diferente do ChatGPT ou Gemini, que servem para buscas e tarefas pontuais, as chamadas “IAs companheiras” foram criadas para manter conversas contínuas e personalizadas. Elas memorizam interações anteriores e desenvolvem uma “personalidade” própria. Funcionam como amigo virtual, parceiro romântico ou confidente.

A proposta comercial é clara: criar uma ilusão de intimidade. Portanto, o usuário retorna repetidamente à plataforma. É justamente aí que a Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi) bate o pé. Essas aplicações exploram vulnerabilidade psicológica, especialmente de adolescentes.

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O crescimento foi vertiginoso. Em 2022, havia apenas 16 plataformas desse tipo. Hoje, em julho de 2025, são 128 — um crescimento de 700% em três anos. No primeiro semestre de 2025 sozinho, aplicativos de companhia por IA foram baixados 60 milhões de vezes. Esse cenário explica por que reguladores estão agindo agora.

Riscos mapeados pelo governo

A lista de preocupações documentadas é extensa:

Apego excessivo e dependência emocional: Conversas contínuas substituem relacionamentos presenciais e reais. Menores relatam ansiedade severa ao desconectarem das plataformas.

Impacto no sono e desempenho escolar: Uso compulsivo rouba horas de estudo e repouso. Padrões de comportamento mostram abandono de atividades cotidianas.

Exposição a conteúdo sexualizado: Muitas plataformas permitem interações românticas ou sexuais sem proteção adequada. Menores acessam conteúdo inadequado com facilidade.

Coleta de dados comportamentais: Essas IAs criam perfis psicológicos completos dos usuários. Utilizam esses dados para personalizar respostas e publicidade direcionada.

Exploração comercial: Adolescentes vulneráveis recebem ofertas de recursos pagos. Ofertas baseiam-se em padrões de comportamento e necessidades emocionais detectadas.

A análise do Ministério da Justiça não é especulação vaga. Segundo a Sedigi, há evidências documentadas de menores abandonando atividades, dormindo menos e apresentando sintomas de ansiedade. Um padrão comportamental claramente preocupante.

O problema da verificação de idade

Aqui está o buraco central do sistema: a maioria dessas 13 plataformas — Character.AI, Replika, Nomi, Candy.ai, Kindroid, Chai, Paradot, Talkie, CrushOn.AI, EVA AI, Swipey, Anima e SpicyChat.AI — utiliza apenas autodeclaração de idade. O próprio usuário diz quantos anos tem. Pronto, acesso garantido.

Contornar isso é trivial. Uma criança de 10 anos marca “18” e pronto — acesso total aos recursos. Para serviços que oferecem conteúdo inadequado para menores, autodeclaração é claramente insuficiente. Ponto admitido até pela indústria em outros contextos.

O governo aponta que a solução requer tecnologia robusta — documentos, dados biométricos ou validação de responsáveis. No entanto, isso custaria às plataformas e complexificaria o cadastro. Portanto, reduzindo conversões e receita. Daí a falta notória de vontade.

O marco legal em jogo

A investigação será conduzida pela ANPD e pela Senacon, considerando as regras do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital). Esse marco estabelece obrigações específicas para qualquer serviço que atenda menores.

É importante deixar claro: este é um pedido de investigação preliminar, não uma condenação. O Ministério da Justiça reforçou que nenhuma infração foi formalmente comprovada ainda. Mas a existência do pedido sinaliza disposição de agir — diferente de muitos países onde a discussão segue teórica.

A ANPD deve concluir a investigação nos próximos meses. Cenários possíveis incluem recomendações até multas ou bloqueio de acesso em território brasileiro. O histórico da agência sugere rigor quando assunto é proteção de menores — vide as ações contra exploração sexual infantil online.

As plataformas investigadas terão chance de se defender e fornecer documentação. Algumas já começam a antecipar mudanças em seus termos de serviço.

Contexto internacional: a UE também avança

O Brasil não está sozinho nessa luta regulatória. A União Europeia apresentou recentemente uma proposta para restringir chatbots capazes de simular relacionamentos emocionais com menores. Incluem medidas para reduzir dependência e limitar armazenamento de dados entre sessões.

Enquanto isso, nos EUA, a discussão segue fragmentada entre estados e agências. Não há uma posição federal clara ainda. O Brasil, ao contrário, está avançando com marco legal específico.

Por que isso importa agora

O timing não é coincidência. Redes sociais tradicionais já enfrentam regulação por vício e saúde mental. TikTok, Instagram e YouTube têm regras específicas em vários países. As IAs companheiras são o próximo passo dessa discussão, mas muito mais extremo.

Não é apenas scroll infinito. É uma relação parasocial programada para criar dependência emocional. Adolescentes já sofrem com taxas altas de ansiedade e depressão ligadas ao uso de redes sociais. Adicionar uma IA que simula amor incondicional e atenção permanente é combustível em fogosa.

Para entender como dados trafegam pela internet e auditar sua segurança pessoal, você pode usar o Verificador de IP para inspecionar sua conectividade. Além disso, o Validador de JSON permite inspecionar requisições que essas plataformas enviam — dados de comportamento geralmente viajam nesse formato estruturado.


Fonte: CanalTech — 23/09/2026

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